photo-1593113598332-cd288d649433

Lançado relatório sobre Impacto da Covid-19 nas OSCs brasileiras

A Covid-19 não é um problema simples para nenhum setor e para o terceiro setor também – apesar da atuação essencial na assistência e socorro às pessoas. E é exatamente isso que mostra o relatório “Impacto da Covid-19 nas OSCs brasileiras”, realizado com base nas informações de mais de 1700 OSCs brasileiras, em todas as regiões do país.

O levantamento mostra que números impressionantes de como a área foi afetada e o papel das suas atividades no combate aos efeitos da pandemia. De acordo com o estudo, cerca de 73% das OSCs foram enfraquecidas com a pandemia. Os dados do relatório mostram que as áreas com mais dificuldade são as relacionadas ao Meio Ambiente, Cultura e Recreação. 

 O mesmo número (73%) teve ainda uma diminuição na captação. 36% tiveram que parar todas as suas atividades. A natureza das atividades é um dificultador, muitas vezes e no movimento de adaptação das atividades, mais de 50% das organizações aceleraram seus processos de digitalização e uso de ferramentas digitais para recuperar parte da autonomia nas atividades.

Apesar de todas as intempéries, um número chama a atenção no relatório: cerca de 87% das organizações estão realizando atividades para combater os efeitos desse momento, seja na assistência básica, saúde ou outras soluções importantes para continuar a garantir serviços para a população.

Apesar do momento difícil para todos cabe pensar no papel das OSCs em garantir direitos básicos do cidadão, promover oportunidades, oferecer recursos, ferramentas e aprendizado e o quanto esse trabalho é essencial para o desenvolvimento e bom andamento da sociedade. É importante lembrar que a nomenclatura OSC se refere a qualquer organização que exerça atividade com finalidade pública.

Um ponto de reflexão para nós da IMELC, uma organização de esporte, lazer e cultura, esse foi o momento de pensar de que maneira continuar promovendo aprendizado, criatividade e transformar qualquer oportunidade em uma chance de causar impacto e de formar integralmente cidadãos plurais e amplos.

Aqui estamos, entrando em mais um mês de isolamento social e com uma certeza: que se depender de nós, a experiência com a cultura vai continuar alcançando muitas pessoas.

 

WhatsApp Image 2020-08-04 at 22.02.22

Jô Freitas – Poesia é movimento

Aqui na IMELC procuramos histórias inspiradoras de como a arte, esporte e cultura, transformam vidas, dão espaço para o diálogo, fomentam pensamento crítico e beleza na sociedade. E hoje, vamos falar de um tipo de arte que faz parte da nossa vida todos os dias: a arte das palavras.

Identidade

A Jô Freitas é atriz, poeta, Cenopoeta, integrante do Sarau das Pretas e idealizadora do Sarau Pretas Peri, apresentadora, professora, nordestina, mulher negra e muitas outras coisas. Logo no começo da conversa, quando perguntada sobre suas identidades no campo das artes e da profissão, Jô comenta que ser artista não era algo que estava dado na sua vida: “eu venho de uma família em que as mulheres são todas empregadas domésticas […] e quando eu me vejo nesse lugar de querer ser artista, parecia que não estava nessa linhagem”, diz Jô. “Todos os dias eu tenho que buscar minha identidade em palavras”, completa.

Sua jornada pela busca de identidade alcançou as artes, em 2003, quando o teatro entrou na sua vida. Apesar de não ter nascido em família de artistas, sua inclinação para as artes começou a se mostrar já muito jovem através da sua necessidade de ter uma voz: “eu era uma menina muito anulada, muito tímida, sem muitos amigos”. Acompanhada das irmãs – que deixaram a prática mais tarde – Jô encontrou nas aulas de teatro uma ferramenta para sua livre expressão. E querer se dedicar às artes não era fácil. A pequena Jô  esperava de domingo a domingo pelas aulas, e insistir demandou muita força de vontade. O transporte e as roupas para ir nem sempre eram recursos à disposição, e para manter sua paixão pelo teatro, Jô vendeu coxinha e trabalhou em lojas de móveis: “tudo isso era para que eu tivesse dinheiro [para fazer as aulas]… nessa época, eu não queria ser artista exatamente, eu queria existir”, completa.

E quando trabalhar com artes passou a ser um desejo, a história de sucesso como multiplicadora da literatura nasceu. Ela, que já tinha estudado teatro até então, em 2009 descobriu um Sarau em Suzano, no qual artistas compartilhavam textos com experiências que eram muito próximas ao coração de Jô: “eu comecei a ver vários poetas dizendo coisas sobre sua identidade e resistência, coisas que eu escrevia nos meus cadernos”. 

Cenopoesia

Pouco depois, em 2010, a jovem poeta conheceu o trabalho de Ray Lima e Junio Santos, dois precursores de um outro cenário que mistura o teatro, a literatura e a música: a Cenopoesia. E ali um amor por esse formato nasceu. Ali, poesia era movimento e vida, não uma arte intelectualizada: “a poesia não precisa ser uma coisa chata, que necessita de postura chique pra ler, ela pode se dispor do corpo, pode fazer poesia em movimento” –  diz – “eu acho que era isso que eu buscava, porque antes quando se fala de poeta, a gente pensa em escritores dentro de um escritório, em seus momentos para escrever, mas os escritores periféricos são aqueles escritores de tanque, que vivem, que pegam trem… isso é movimento”, completa a artista.

Com a Cenopoesia, Jô passou a ser reconhecida no nicho e a aplicar oficinas da prática, inclusive para crianças e jovens de escolas públicas. Promover a oralidade e a necessidade de fazer a poesia com a participação fundamental do corpo, Jô explica, é mais do que uma atuação: “a manifestação dos atos artísticos potencializam a ancestralidade e identidade do ser, então a Cenopoesia potencializa o indivíduo social e, ali, ele não é só um ator. A Cenopoesia aproxima a arte do artista”.

O movimento da vida na arte se mostra também nas plataformas por onde a poesia se faz. Em seus trabalhos, a artista também começou a explorar plataformas como vídeo e até realidade aumentada.

Sarau Pretas Peri e Sarau das Pretas

Jô Freitas ficou conhecida nos últimos anos, entre outras coisas, por dois projetos cruciais que trazem a vivência de mulheres negras para a folha de papel. E tudo isso começou pequeno. 

Em 2014, Jô percebeu uma necessidade latente de arte acessível na sua região, no Itaim Paulista, e ali vê a oportunidade de ser uma agente de implementação de arte na região. No primeiro momento, com medo de o Sarau ser algo que as pessoas não se identificassem, Jô teve a ideia de promover o teatro, e assim, companhias e grupos passaram a se apresentar em um terreno baldio, no bairro Camargo Velho. E Jô conta que a própria comunidade fazia o espaço de convivência: “as pessoas levavam cadeiras, tapetes e papelão, além de limpar o terreno para assistir os espetáculos”, relembra. Depois de um ano e meio,e muito esforço para mostrar a relevância do projeto e necessidades do local, o espaço foi revitalizado e virou uma praça. Nessa inauguração, foi quando o Sarau Pretas Peri se apropriou do modelo que é hoje: Jô, Juliana Juliana Jesus e Tayla Fernandes – que já se conheciam – fizeram o seu primeiro sarau. E o Pretas Peri decolou.

E assim, os braços da menina-polvo alcançaram outros lugares. Jô foi convidada pela Débora Garcia, poeta, para participar do Sarau das Pretas – um sarau itinerante, nascido em 2016, que reúne poetas de vários cantos da cidade. O grupo cresceu e recentemente, em meio à pandemia, o grupo lançou uma antologia com obras de 30 poetas e escritores. “falar e fazer um livro físico é estar junto dos outros livros e fazer parte da história da literatura.”, reflete Jô Freitas.

Em 2019, junto com o Sarau das Pretas, Jô e outras participantes foram convidadas a ir para Moçambique participar de um festival de poesia, e como para todos os artistas, a experiência contou com uma grande mobilização: “foi uma experiência sem igual, que mudou a minha escrita e visão de mundo”, finaliza.

***

A história da Jô, é uma dessas histórias que nos faz acreditar que a arte é realmente um veículo de discussão social e mobilização social, elaboração de identidade e, até mesmo, de uma ocupação profissional – mais do que um ofício da paixão, um ofício que posiciona o indivíduo como um ser social, influenciador e influenciado do seu entorno, pequenos universos em expansão no meio da sociedade. E que universos.

 

imagens:

Jô Freitas

QuitoProduções

Bruno Leal

Antônio Henrique

melissa

Nossas Histórias – O caminho da pequena artista

Aqui no Nossas Histórias, a gente mostra como a arte pode ser um caminho para transformar o dia a dia de crianças, jovens e adultos em uma vida mais colorida, mais criativa e mais feliz. E por isso, hoje vamos falar sobre a história da Melissa, a pequena desenhista que tem cada vez mais mostrado que a arte a escolheu… e vice versa. 

Ela tem 10 anos e começou a ter aula de desenho há um ano e meio. Em seu desenvolvimento na arte, Melissa já começa a mostrar seus primeiros interesses e preferências – seus estilos favoritos são mangá e realismo. “Ela já demonstra interesse também em fazer faculdade de artes e se tornar uma artista profissional. Ela tem um projeto de montar uma loja virtual para vender seus desenhos e projetos artesanais”, conta a mãe, Ronilda.

O talento da jovem nas atividades manuais não fica só na arte de entrelaçar o lápis pelos dedos para embelezar o papel. Ela também pratica – e tem se mostrado muito boa – em fazer amigurumis, técnica de crochê japonês que, pela sofisticação e beleza da trama, se tornou uma arte muito requisitada na mundo do design. E esse apreço vem de família: “o crochê ela aprendeu comigo, e eu aprendi com a minha mãe. Ela queria muito, e hoje ela consegue fazer com a mão direita mesmo sendo canhota. Eu ainda ajudo ela a fazer algumas partes, mas a maior parte é ela quem faz”, diz a mãe.

A mãe conta que, quando chega das aulas, Melissa se junta, faz aulinhas e ensina as técnicas para os amigos. Além das aulas com a professora Paulinha – que é uma grande incentivadora do talento dos alunos – a pequena também gosta de buscar nos livros suas inspirações e desenvolvimento: “ela tem livros de desenho de mangá, que ensinam a fazer, por exemplo,  corpo e rosto, e ela gosta muito de ficar vendo para aprender cada vez mais”, conta Ronilda.

A Melissa é também uma ótima estudante. Com o incentivo de uma professora, a jovem conseguiu uma bolsa em uma importante escola da região. E então, começou a fazer uma coisa curiosa: passou a vender alguns de seus desenhos para os colegas de classe. “Eles mandavam fotos e a partir da foto ela fazia desenhos e cobrava R$ 10,00 pela arte”, diz a mãe. Além disso, Melissa começou a se desenvolver em pintura em tela e tem até uma encomenda de um quadro. Por ainda estar no começo, ela estava contando com a ajuda da professora Paulinha, e como tudo nos últimos meses, a atividade foi interrompida. Seu desenvolvimento nos desenhos realistas, que estava começando quando aconteceu a pandemia da Covid, também está em hiato, apenas esperando para continuar e mostrar a habilidade da artista.

Apesar da importância das artes para mostrar a criatividade, coordenação e talento da jovem, sua mãe conta que o desenho ajuda em um aspecto ainda mais importante da vida da artista: o controle da ansiedade. “Ela é ansiosa, então essa arte trabalha muito isso nela e ajuda até na integração na escola”.  Melissa, que também tem uma dificuldade na visão, inspira a todos ao mostrar que dificuldade nenhuma acaba com a sua motivação porque, quando o amor é sólido, não tem nenhum obstáculo que não dê para ultrapassar.


WhatsApp Image 2020-07-31 at 13.06.33 (1)

A importância do lazer na vida da sociedade

Aqui na IMELC falamos bastante sobre os aspectos transformadores da cultura e do esporte. Mas tem uma outra ferramenta transformadora nos nossos projetos que tem um papel fundamental na vida da sociedade: o lazer. E pensando nisso, conversamos com uma pessoa que foi suuuuper especial e participativa no Rua da Gente 2019: o tio Meleca!

O tio Meleca é, na verdade, Augusto Naliato. Sua história com a promoção da recreação, lazer e da brincadeira começou dentro da própria família, com os irmãos que já trabalhavam com a arte do brincar: “eles me falavam sobre as pessoas e os lugares que eles conheciam, e isso foi me animando para seguir o mesmo caminho”, conta. Aos 14 anos, o que era só admiração pelo trabalho dos irmãos se tornou uma oportunidade real de se juntar ao trabalho para promover a sua primeira festa e começar a missão de levar alegria e a experiência de brincar para as pessoas. Desde então já são 14 anos de carreira.

E quem pensa que brincar é uma arte que só precisa de dom e força de vontade para acontecer, se engana: “durante esses anos eu já fiz vários cursos de montagem de brincadeiras, contação de histórias, especializações para faixas etárias”, diz o recreador. Mas além disso, um dos sonhos para se profissionalizar ainda mais, é o curso de Educação Física – “mas voltado para a área de recreação mesmo”, completa.

E existe mais do que a parte de brincar na atuação da recreação. Tio Meleca conta que a montagem dos eventos e da produção para que eles aconteçam, também necessita de apoio da recreação com som, montagem e outras necessidades que fazem o trabalho ir além da farra com a criançada: “eu gosto muito dessa parte de fazer as coisas para que o evento aconteça, além de também pegar a criançada para brincar e fazer a festa ser sensacional”, explica o recreador.

Como falamos no começo do texto, o tio Meleca fez parte do Rua da Gente 2019, um projeto que levou atividades esportivas, de lazer, e culturais para os quatro cantos da cidade durante quatro meses de projeto. E, apesar de trabalhar há muitos anos com a área da brincadeira, ela conta que a experiência com o público era diferente: “levar a recreação para todos, sem distinção, com o Rua da Gente, foi muito legal porque a resposta do público era sensacional. Por, muitas vezes, não ter atividades assim sempre, as pessoas queriam aproveitar o máximo possível”, relembra.

Em tempos de digitalização e do apego das crianças com conteúdos on-line, é cada vez mais importante a atuação em prol de trazer de volta o prazer de brincar para fora das telas, trazendo interação social e, até mesmo, atividade física. Augusto também explica que, no caso de crianças sem oportunidade de acesso aos meios digitais, promover a brincadeira não deixa de ter sua importância: “[as crianças que não estão inseridas na cultura digital], muitas vezes, não tem a chance de fazer outras atividades fora de casa… então é essencial levar cultura e expressão para elas”.

Nesse momento de pandemia, os benefícios do contato presencial afetou o trabalho e, como todas as atividades presenciais, foi necessário passar as atividades para o ambiente on-line, e a reestruturação das atividades, no começo, não foi fácil, principalmente quando se trata das atividades que necessitam de espaço e interação física. Mas com um pouquinho de adaptação no ambiente on-line, deu certo: “hoje fazemos atividades de caça objetos, qual é a música, stop, danças”, conta. “Os pais estão adorando porque assim os filhos conseguem interagir com os amigos”, finaliza.