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Jiu-Jitsu, Artes Marciais na quarentena e os quatro fatores de checagem na luta e na vida

A intenção dessa conversa com o Luciano Sabato, treinador de Jiu-Jitsu, era ser transformada em um texto sobre a visão do Jiu-Jitsu em relação à quarentena, mas acabou virando um papo sincero sobre as lições das Artes Marciais para a vida e o que esperar do futuro. Por isso, decidimos colocar na íntegra o depoimento do Sabato.
Depoimento de Sabato para IMELC
O esporte na vida

Eu tenho 45 anos, tenho 2 filhos, sou formado em educação física e as artes marciais estão na minha vida há 25 anos. Eu comecei aos 20 com uma arte chinesa chamada Wing Chun (Ving Tsun), um sistema de Kung-Fu que parte do princípio da simplicidade, não tem competição. É trabalhado nela, um dispositivo, uma ferramenta de desenvolvimento humano.

Meu objetivo nas artes marciais desde o início não foi de aprender a me defender ou por gostar de competições, até porque eu comecei mais tarde, não era como os garotos que começam mais cedo com essa vontade. Eu comecei porque estava procurando um equilíbrio na minha vida. Cheguei a participar de algumas competições, mas nunca foi meu foco principal. Eu fui campeão paulista, vice-campeão mundial, ganhei desafios, fui campeão do circuito do interior de São Paulo, campeão brasileiro. Mas tudo, eu já era mais velho. Eu fui competir só a partir de 30 anos.

Hoje o trabalho que eu desenvolvo é com o Jiu-Jitsu, que tem um enfoque forte na competição, mas esse nunca foi o nosso objetivo principal. Eu deixo meus alunos muito à vontade para participar de competições ou não porque meu objetivo continua sendo o desenvolvimento humano, o equilíbrio que as artes marciais podem trazer. Então todo aprendizado na academia, a gente faz uma analogia com a vida.

Vencer

Eu acho que a maior vitória que a gente pode ter é vencer a nós mesmos. Vencer os nossos desafios pessoais, nossos problemas, angústias, desequilíbrios. É esse o benefício imenso que as artes marciais trazem: as ferramentas para aplicar no dia a dia.

Quem usa a arte marcial apenas como esporte de combate, para competição e sem muita filosofia, [vai ter benefícios] por um tempo curto na vida da pessoa. Ela provavelmente vá ser atleta por uns dez anos, 15 anos se for muito. Então tem que pegar essa ferramenta, que é pra vida, e aplicar no dia a dia, senão é muito pouco – um período muito curto e absorvendo pouco daquele universo que são as artes marciais.

Fatores de checagem: da luta para a vida

Eu tenho quatro fatores de checagem que eu utilizo para um treino e posso utilizar pra vida: posicionamento, distância, timing e energia.

O primeiro fator, posicionamento, é como a gente se posiciona na vida. Aliás, o posicionamento não é só como a gente se enxerga, mas como o outro enxerga a gente também. Por exemplo, se você vai em uma reunião de negócios, mas não está vestido de acordo com o local. Isso é um erro de posicionamento.

A distância é respeitar e não invadir o espaço do outro. O timing é sobre o momento certo de fazer algo.A energia é aquilo que a gente coloca nas coisas.

E os quatro se complementam. Às vezes, você se posiciona bem, mas coloca energia demais e acaba estragando tudo. Às vezes se posiciona bem, coloca a energia correta, mas erra no momento de falar. Às vezes está tudo certinho, mas você está na distância errada.

Esses fatores de checagem são super importantes.

Pandemia na Arte Marcial

A Arte Marcial é trabalhada através do movimento, não só da filosofia. A gente mostra através do corpo. Então arte marcial sem contato físico, pode esquecer. Mas na pandemia, não tem isso e temos que trabalhar outros aspectos. Eu acho que os professores que não desenvolvem esses outros aspectos [não físicos], tem que começar a desenvolver porque se sustenta arte marcial sem o corpo, sem o combate simbólico? Não. Mas se agora não pode, vamos trabalhar outra coisa.

O Bushido [o caminho do guerreiro – código de vida de um Samurai] fala sobre o caminho da pena e da espada. Então vamos usar a pena agora, buscar o outro lado das coisas. O lado do estudo e do autoconhecimento.

Para o futuro, eu vejo as pessoas buscando um trabalho mais personalizado, cuidar mais da saúde, buscar mais segurança nos locais – uma assepsia maior, higiene maior – e isso só traz benefício.

As aulas on-line também não vão acabar, mas podem ser uma ferramenta de complemento, porque nada substitui o contato físico na arte marcial. O personal trainer ou personal fighter vai ter bastante oportunidade.

Eu acho que tudo isso tem um lado muito positivo. Na arte marcial a gente se desenvolve através da crise, do combate simbólico. Sem uma crise, não há desenvolvimento. A gente está numa baita crise, então vamos voltar mais forte. A chance é de enxergar as alternativas que tem e através delas se desenvolver. Quem encontrou isso na pandemia vai crescer e evoluir.

 

Situação do Jiu-Jitsu

A Federação Internacional de Jiu-Jitsu, que rege a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, cancelou os campeonatos esse ano. Eu acho que não é o momento de pensar sobre eles. Para quem trabalha com atletas profissionais, vai ser difícil. Para esses atletas, [é hora de] pensar em outros formatos. Para os patrocinadores, [é hora de] dar o apoio já que agora os profissionais não podem competir.

No meu contexto, [não trabalhar com atletas profissionais], acho que agora é momento de pensar no nosso espaço, nossa academia, o quanto a gente pode se ajudar. As diferentes bandeiras podem se unir para colocar o Jiu-Jitsu em primeiro lugar.

Presença digital

A presença digital tem sido fenomenal. Nunca usei tanto as redes sociais como agora. Tenho feito bastante lives, conversado com grandes nomes das Artes Marciais. Está sendo um aprendizado enorme. Através da minha marca de kimono, a Black Ball, também vou começar a fazer lives de conteúdo. Isso tem ajudado muito. As pessoas que quiserem aprender nessa área, fantástico. Eu mesmo estou fazendo uma pós-graduação à distância. E acho que a gente acelerou uns 20 anos nesse aspecto.

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PCD e a pandemia: PEAMA usa arte para continuar incentivando alunos do programa

Esse é um momento em que todos procuram entender qual o próximo passo, qual o tamanho da adaptação necessária, como inovar e continuar impactando positivamente o mundo e os outros. E é justamente por isso que a história de sucesso do Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas (PEAMA) ganha uma força tão renovadora.

O programa nasceu em 1996 como uma iniciativa da Unidade de Gestão de Esportes da cidade de Jundiaí, com o objetivo de promover inclusão da pessoa com deficiência através do esporte. Hoje são 390 pessoas atendidas e são oferecidas modalidades como: natação, atletismo, bocha, tênis de campo, dança, capoeira, corrida de rua, ciclismo, caminhada, atividades náuticas, escola da bola, futsal, goalball e ginástica rítmica.

Com a paralisação causada pelo isolamento social e a falta do contato presencial, a ideia de uma mãe fez toda a diferença: por que não usar a arte para continuar impactando os alunos através da releitura de obras de arte e até de esporte? 

A ideia ganhou as redes sociais através do grupo Tussen Kunst & Quarentine, grupo holandês que começou a propor uma releitura das obras por pessoas comuns. Já no PEAMA, os alunos e suas famílias não exitaram em deixar a criatividade rolar solta e participar da iniciativa que se transformou no projeto “Arte no PEAMA”. E essa fama já chegou longe: uma das releituras foi selecionada pelo Canal Arte1 como uma das melhores e até a chamar atenção de outras cidades.

Já faz um tempo que a arte e o esporte se cruzam no PEAMA. Para César Munir, diretor do departamento de esporte adaptado da prefeitura de Jundiaí, a relação entre arte e esporte está em incentivar e demonstrar potencialidades: “a gente tem, realmente, essa relação com a arte, porque, a arte, assim como o esporte, é uma forma de demonstrar as possibilidades da pessoa. E isso independe de ter uma deficiência ou não.”, observa César. “[A arte e o esporte] mostram primeiro para a pessoa com deficiência, depois para a família, depois para a sociedade as reais possibilidades que eles têm, e acho que esse também é o impacto social [da iniciativa]”, completa.

Apesar da repercussão do projeto e os benefícios para a criatividade, na área do esporte os desafios ainda são grandes. Trabalhar com a prática esportiva para pessoas com deficiência depende muito da correção presencial e demonstração dos movimentos, e por isso, a adaptação para a realidade pós-pandemia ainda vai levar um tempo para acontecer. No momento, o trabalho com os alunos têm sido direcionado a passar exercícios para que eles continuem ativos em casa, além do acompanhamento e apoio às famílias e alunos.

Mas foi no final da conversa que César nos surpreendeu com uma observação que faz toda a diferença para nossa percepção do impacto da pandemia na vida de pessoas com necessidades especiais, e por isso mesmo, a gente decidiu colocar esse trecho na íntegra. Acompanhe abaixo:

“A gente tem percebido que a pessoa com deficiência, naturalmente, tem uma capacidade de suportar esse contratempo, essa dificuldade, mais do que nós, porque é uma pessoa mais acostumada a ter obstáculos colocados à sua frente durante toda a vida. A pandemia trouxe só mais alguns. Na vida, a pessoa com deficiência está acostumada a ouvir muitos “não”. Uma família com criança com deficiência tem muito essa experiência. Elas estão muito acostumadas a lidar com essa situação de não poder fazer algo. E nesse momento, eu percebi o quanto essas pessoas estão mais preparadas pra lidar com isso.”

 

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#Quarentena – A rotina da bailarina durante o isolamento

Por Marina Bueno

Meu nome Marina Bueno, tenho 15 anos e sou bailarina.

Primeiramente, é evidente que a pandemia do novo Coronavirus trouxe consigo inúmeras consequências que afetaram e modificaram a vida e o dia a dia de muitas pessoas. Eu, como bailarina e com uma rotina muito corrida, senti bem o impacto dessas mudanças.

Logo no início do isolamento social, minha rotina mudou totalmente. Fui do costume de ir a aula de segunda a sexta para [o total oposto de] não ir a nenhuma aula. 

Aos poucos, tudo foi se ajeitando. Minha escola proporcionou aulas via live no Instagram, conteúdos gravados no YouTube e aulas monitoradas via zoom. Pouco tempo depois já estava tendo aulas todos os dias da semana, como de costume.

Mas, com certeza, esse não foi o único desafio a ser superado. O ambiente e o espaço de casa não é tão propício e nem semelhante ao que temos na sala da escola de dança. Foi necessário adaptar tudo, mudar os móveis de lugar, abrir espaço, pedir para a família deixar o cômodo livre no horário de aula, improvisar uma barra, e muito mais. Mas no final é possível fazer as aulas, mesmo nessas circunstâncias, aproveitá-las ao máximo e manter a disciplina.

Entretanto, toda essa situação também afeta o psicológico. Deixar de ir à escola de dança, não ver mais meus amigos e professores pessoalmente, coisas que incentivam e, com certeza, fazem parte da dança, mexem com a motivação e a vontade de praticar em casa. Mas, com o passar do tempo, estamos nos mantendo cada vez mais conectados, mantendo a saudade como possível, e motivando uns aos outros.

Além disso, acredito que a área mais afetada tenha sido os ensaios do corpo de baile e festivais que costumo participar. Em relação aos ensaios, estou tentando passar as coreografias durante a semana para não esquecê-las e lembrar das correções feitas presencialmente, já que não tem sido possível realizar os ensaios on-line. Em relação aos eventos, muitos foram adiados ou cancelados, enquanto outros estão promovendo competições e mostrar pela internet. Mas, apesar disso, as competições presenciais, as viagens de ônibus, os figurinos, os palcos, os aplausos e o frio na barriga antes das apresentações estão fazendo muita falta.

Mal posso esperar até que tudo volte ao normal.