Jô Freitas – Poesia é movimento

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Aqui na IMELC procuramos histórias inspiradoras de como a arte, esporte e cultura, transformam vidas, dão espaço para o diálogo, fomentam pensamento crítico e beleza na sociedade. E hoje, vamos falar de um tipo de arte que faz parte da nossa vida todos os dias: a arte das palavras.

Identidade

A Jô Freitas é atriz, poeta, Cenopoeta, integrante do Sarau das Pretas e idealizadora do Sarau Pretas Peri, apresentadora, professora, nordestina, mulher negra e muitas outras coisas. Logo no começo da conversa, quando perguntada sobre suas identidades no campo das artes e da profissão, Jô comenta que ser artista não era algo que estava dado na sua vida: “eu venho de uma família em que as mulheres são todas empregadas domésticas […] e quando eu me vejo nesse lugar de querer ser artista, parecia que não estava nessa linhagem”, diz Jô. “Todos os dias eu tenho que buscar minha identidade em palavras”, completa.

Sua jornada pela busca de identidade alcançou as artes, em 2003, quando o teatro entrou na sua vida. Apesar de não ter nascido em família de artistas, sua inclinação para as artes começou a se mostrar já muito jovem através da sua necessidade de ter uma voz: “eu era uma menina muito anulada, muito tímida, sem muitos amigos”. Acompanhada das irmãs – que deixaram a prática mais tarde – Jô encontrou nas aulas de teatro uma ferramenta para sua livre expressão. E querer se dedicar às artes não era fácil. A pequena Jô  esperava de domingo a domingo pelas aulas, e insistir demandou muita força de vontade. O transporte e as roupas para ir nem sempre eram recursos à disposição, e para manter sua paixão pelo teatro, Jô vendeu coxinha e trabalhou em lojas de móveis: “tudo isso era para que eu tivesse dinheiro [para fazer as aulas]… nessa época, eu não queria ser artista exatamente, eu queria existir”, completa.

E quando trabalhar com artes passou a ser um desejo, a história de sucesso como multiplicadora da literatura nasceu. Ela, que já tinha estudado teatro até então, em 2009 descobriu um Sarau em Suzano, no qual artistas compartilhavam textos com experiências que eram muito próximas ao coração de Jô: “eu comecei a ver vários poetas dizendo coisas sobre sua identidade e resistência, coisas que eu escrevia nos meus cadernos”. 

Cenopoesia

Pouco depois, em 2010, a jovem poeta conheceu o trabalho de Ray Lima e Junio Santos, dois precursores de um outro cenário que mistura o teatro, a literatura e a música: a Cenopoesia. E ali um amor por esse formato nasceu. Ali, poesia era movimento e vida, não uma arte intelectualizada: “a poesia não precisa ser uma coisa chata, que necessita de postura chique pra ler, ela pode se dispor do corpo, pode fazer poesia em movimento” –  diz – “eu acho que era isso que eu buscava, porque antes quando se fala de poeta, a gente pensa em escritores dentro de um escritório, em seus momentos para escrever, mas os escritores periféricos são aqueles escritores de tanque, que vivem, que pegam trem… isso é movimento”, completa a artista.

Com a Cenopoesia, Jô passou a ser reconhecida no nicho e a aplicar oficinas da prática, inclusive para crianças e jovens de escolas públicas. Promover a oralidade e a necessidade de fazer a poesia com a participação fundamental do corpo, Jô explica, é mais do que uma atuação: “a manifestação dos atos artísticos potencializam a ancestralidade e identidade do ser, então a Cenopoesia potencializa o indivíduo social e, ali, ele não é só um ator. A Cenopoesia aproxima a arte do artista”.

O movimento da vida na arte se mostra também nas plataformas por onde a poesia se faz. Em seus trabalhos, a artista também começou a explorar plataformas como vídeo e até realidade aumentada.

Sarau Pretas Peri e Sarau das Pretas

Jô Freitas ficou conhecida nos últimos anos, entre outras coisas, por dois projetos cruciais que trazem a vivência de mulheres negras para a folha de papel. E tudo isso começou pequeno. 

Em 2014, Jô percebeu uma necessidade latente de arte acessível na sua região, no Itaim Paulista, e ali vê a oportunidade de ser uma agente de implementação de arte na região. No primeiro momento, com medo de o Sarau ser algo que as pessoas não se identificassem, Jô teve a ideia de promover o teatro, e assim, companhias e grupos passaram a se apresentar em um terreno baldio, no bairro Camargo Velho. E Jô conta que a própria comunidade fazia o espaço de convivência: “as pessoas levavam cadeiras, tapetes e papelão, além de limpar o terreno para assistir os espetáculos”, relembra. Depois de um ano e meio,e muito esforço para mostrar a relevância do projeto e necessidades do local, o espaço foi revitalizado e virou uma praça. Nessa inauguração, foi quando o Sarau Pretas Peri se apropriou do modelo que é hoje: Jô, Juliana Juliana Jesus e Tayla Fernandes – que já se conheciam – fizeram o seu primeiro sarau. E o Pretas Peri decolou.

E assim, os braços da menina-polvo alcançaram outros lugares. Jô foi convidada pela Débora Garcia, poeta, para participar do Sarau das Pretas – um sarau itinerante, nascido em 2016, que reúne poetas de vários cantos da cidade. O grupo cresceu e recentemente, em meio à pandemia, o grupo lançou uma antologia com obras de 30 poetas e escritores. “falar e fazer um livro físico é estar junto dos outros livros e fazer parte da história da literatura.”, reflete Jô Freitas.

Em 2019, junto com o Sarau das Pretas, Jô e outras participantes foram convidadas a ir para Moçambique participar de um festival de poesia, e como para todos os artistas, a experiência contou com uma grande mobilização: “foi uma experiência sem igual, que mudou a minha escrita e visão de mundo”, finaliza.

***

A história da Jô, é uma dessas histórias que nos faz acreditar que a arte é realmente um veículo de discussão social e mobilização social, elaboração de identidade e, até mesmo, de uma ocupação profissional – mais do que um ofício da paixão, um ofício que posiciona o indivíduo como um ser social, influenciador e influenciado do seu entorno, pequenos universos em expansão no meio da sociedade. E que universos.

 

imagens:

Jô Freitas

QuitoProduções

Bruno Leal

Antônio Henrique