Anne Frank e a angústia do isolamento

Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

75 anos. É tudo isso de tempo que temos do fim da Segunda Guerra Mundial, a última grande crise mundial até agora. Segundo relatório divulgado pela ONU, esse estado de exceção em que estamos devido ao Covid-19, é a crise mais desafiadora que a humanidade passa desde a guerra.

75 anos. É tudo isso de tempo que temos desde a morte de Anne Frank. A jovem, judia, aos 15 anos morreu em um campo de concentração depois de passar dois anos em isolamento com a família no anexo de um prédio em Amsterdã.

75 anos. É tudo isso de tempo que nos separa do contexto desses dois fatos e que ao mesmo tempo nos dá a oportunidade de pensar um pouco sobre a angústia do isolamento e da incerteza.

Anne Frank, no alto de sua adolescência, nutriu um diário – sem o conhecimento dos familiares – carregado de suas frustrações, seus medos e seus conflitos dentro do isolamento. Um isolamento solitário, sem internet, sem chamadas de vídeo, sem memes, sem lives.

O medo de Anne em relação ao mundo exterior parece encontrar em nossos dias uma similaridade: um inimigo desconhecido que também é um risco à nossa sobrevivência, que também está envolto em um misto de incertezas e medos, e que também só é possível ser vencido pela força da esperança, da valorização das pequenas dádivas da vida e da vontade de chegar do outro lado da margem.

Na realidade de Anne, o anexo minúsculo comportava oito pessoas. Andar, só se fosse de cócoras, descalço. Conversar, só se fosse na base dos sussurros e gestos. Comer, às vezes não. Tudo em silêncio, sem perspectiva, sem muito sol. E é nesse ambiente que os planos de Anne Frank para o futuro se desenhavam. Ela queria ser escritora, ela imaginava o dia em que não estaria mais em confinamento. Ela usou a criatividade e a imaginação para continuar.

Apesar de “O Diário de Anne Frank” ser muito importante para a literatura mundial, ele ultrapassa o campo do texto e alcança a nós, hoje, ao demonstrar como o ser humano é ser humano sempre e pra sempre, nos surpreendendo com o fato de compartilharmos sentimentos com uma adolescente de 15 anos, que viveu há mais de 70 anos.

Se algum dia a angústia de Anne pareceu irreconhecível, é agora experimentando uma fração das dores do isolamento dela que encontramos o valor da solidariedade e respeito, ao pensar que se isolar, nesse caso, é respeitar o próximo, sabendo que, dessa vez, o perigo não discrimina. E através desse olhar, alcançar um nível de humanidade, de empatia e igualdade, que passou de largo nos dias de Anne.

75 anos é o tanto de tempo que somos um pouco mais Anne Frank do que jamais fomos. Essa parece ser a melhor hora de reconhecer que o prejuízo do isolamento não é só nosso e que o perigo lá fora não é só nosso. Essa parece ser a melhor hora para entender que, na melhor das interpretações, aprendemos a valorizar as pequenas liberdades que outros não tiveram, e que a gente sempre tomou como garantido. Aprendemos que somos iguais. E que, mesmo no isolamento, existe espaço para a criatividade, para continuar escrevendo, pintando e sonhando com um mundo que pra muitos nunca chegou. Mas pra gente vai. Pra gente pode chegar.

Mantenha as esperanças altas. Respeite o próximo. Dê lugar à criatividade. Fique em Casa.