Teatro, Bertoleza e a questão étnico-racial

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A gente sabe o quanto a arte é importante para o desenvolvimento coletivo da sociedade, contribuindo para cidadania e cooperação. Mas a arte também pode ter um papel muito importante de trazer à tona a discussão de assuntos importantes e difíceis para o todo.  E vamos mostrar um exemplo disso.

A Companhia Gargarejo nasceu em 2014, em Campinas, com o objetivo de abrir o cenário local de teatro – cenário muito influenciado por grupos fechados de teatro nascidos dentro da Universidade de Campinas. A Gargarejo, aberta para todos que quisessem participar, começou fazendo teatro-escola, com a adaptação de obras literárias infantis e para o vestibular, como Vidas Secas, do Graciliano Ramos; O Auto da Barca do Inferno, do Gil Vicente; e O Cortiço, do Aluísio Azevedo. 

Em 2017, depois de uma pausa em Campinas, o grupo recomeçou em São Paulo a missão de levar histórias e, mais do que isso, uma mensagem: “já não bastava mais fazer o que encomendavam da gente, a gente começou a entender qual a nossa identidade, o que a gente queria falar”, diz Anderson Claudir, diretor da Cia Gargarejo. O grupo passou a trazer à tona a questão étnico-racial para dentro das peças, e assim nasceu o musical “Bertoleza”, que foi construído ao longo de cinco anos de trabalho e descobertas de identidade da companhia e dos atores. Bertoleza teve recentemente uma temporada de 12 espetáculos no SESC Belenzinho – com todos os ingressos esgotados.

Nós conversamos com o Anderson e com a Andreia Minczyk, produtora, para falar um pouco sobre o caminho da Gargarejo e a importância do discurso que carregam dentro da sua arte. Confere aí!

Encontrando um caminho: a questão étnico-racial
IMELC Como vocês foram achando o caminho de vocês de falar o que vocês queriam?

Anderson – No nosso trabalho de adaptação das obras, a gente foi percebendo que não queria só fazer uma coisa para os alunos passarem no vestibular. A gente começou a entender a nossa identidade e o que a gente queria falar. Acho que isso foi acontecendo também [a medida que] a gente tinha que adaptar para crianças e adolescentes, porque eles tinham que se interessar e se identificar. A gente quer se comunicar com todo mundo – do público em geral ao crítico.

Andreia – Pra gente não fazia sentido o teatro falar com apenas uma parcela da população. A gente sentiu isso com Bertoleza, muita gente viu e gostou, e os críticos também.

Bertoleza: o musical
IMELC Vocês enfatizam bastante a questão étnico-racial. Como nasceu Bertoleza dentro disso?

Anderson – Nós estávamos adaptando O Cortiço e quando chegamos naquela mulher (Bertoleza), pensamos: precisamos falar sobre ela. Eu, como homem negro, penso nas questões que são importantes para mim. A questão étnico-racial aparecia em outras peças, mas esse foi o momento de focar mesmo. E aí a gente viu que essa história precisava contada por atores negros, dar visibilidade, colocar essas pessoas no palco. Acabamos mudando o elenco e achando um caminho de entendimento do discurso e o quanto era importante falar sobre a mulher negra e o apagamento da população negra. Então pegamos a personagem com aquela história trágica e demos uma outra cara pra ela, transformando em uma protagonista. E isso acabou sendo muito forte em outros trabalhos também.

IMELC Esse é o primeiro musical de vocês?

Anderson – A gente está trabalhando em Bertoleza desde 2015. Nem era para ser um musical [risos]. Eu fui adaptando a obra e escrevendo músicas, mas era para os ensaios de grupo, pra gente cantar junto. Bertoleza vem de várias experiências: apresentamos em festival de cenas curtas, cenas médias, em praça de Campinas, fez leitura, roda de samba… Aí em 2019, um amigo, o Emílio [se tornou coreógrafo do grupo] comentou: vocês estão fazendo um belo musical. Aí quebrou [aquela resistência] e falamos: ok, então vai ser um musical. Pra gente foi importante pesquisar os ritmos brasileiros a partir do século XIX e colocar essa identidade. E na peça todos os atores também tocam e cantam.

Andreia – A gente quis que tivesse uma identidade bastante brasileira. E foi engraçado, uma vez a gente falou: “poxa, tem que ter sanfona… quem quer tocar sanfona?”. De um dia pro outro ficaram ensaiando, ensaiando, ensaiando pra tocar Sanfona.

IMELC E fala um pouquinho da Lu Campos, a protagonista… como foi trabalhar com ela?

Anderson – A Luana é o ser mais maravilhoso do mundo – pode colocar que eu falei isso!  [risos].Ela é de um magnetismo, de força incrível. E ela também passou por um processo de mudança de vida, de se enxergar como mulher negra e a personagem também foi mudando nesse processo da Luana.

Andreia – Não tem o que falar! Ela é uma pessoa incrível que a gente pode contar pra tudo.

 

Pandemia e o futuro
IMELC – Como vocês estão fazendo para driblar esse momento e que vem para o futuro da Cia. Gargarejo?

Anderson – Lá em 2015 quando a gente enxergou a Bertoleza, começamos a enxergar outras mulheres também. A gente tem um projeto chamado O Cortiço por Elas, com cinco peças sobre mulheres [personagens da obra] pra tratar de questões, principalmente étnico-raciais. A próxima peça é sobre Rita Baiana. Então estamos usando esse momento pra escrever a peça, escrever as músicas e para estabelecer o grupo melhor para começar a utilizar as ferramentas digitais também.