Por Daniel Bernardes – O teatro: o nascer e o criar

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Em primeiro lugar quero agradecer por estar escrevendo nesta página. E também parabenizá-los pelo empenho artístico que todos os professores de artes têm realizado, via internet, neste período de pandemia. O que mantém minha confiança de que a arte pode estar não só nos grandes teatros e em festivais, mas em todos os espaços do mundo, do nosso dia-a-dia; a nossa vida, enfim, com arte, a começar pelo centro das nossas casas e entre as pessoas mais próximas da nossa família. Provaram que vão além dos limites e estão organizados para isso, são capazes de se libertarem olhando de forma diferente para as coisas, por outro viés, buscando outras vias, outras alternativas, diferentes do padrão que todo mundo já busca.

Tenho que lhes dizer, antes de tudo, que sim, sem dúvida, o teatro é um meio de comunicação que utilizamos dia a dia, portanto uma forma de expressão humana. É uma linguagem simples (o que não é o antônimo de complexo, mas que é básico), pois que até o analfabeto faz cena, e a criança iletrada também faz.

O ator adquire mais controle de suas expressões humanas, através de muito esforço e muito treino. Para conhecer alguém, ande junto com essa pessoa. Para saber melhor de algo, vá aos princípios (da origem se acompanham as transformações). Qual a primeira expressão? Sem dúvida, é nascer. Talvez expressemos algo quando damos algumas pancadas na barriga da nossa mãe, mas isso só ela percebeu ou só alguns. Mas, quando nascemos, nos encontramos com o mundão aqui fora e com os outros de fato. Depois abrimos um berreiro, aprendemos a sentir e pensar esse “outro” que está fora, e depois falamos… Tudo isso é expressar. Expressamos ações e todas elas imitam a primeira, que é nascer, todas elas nascem na gente. A fala nasce da boca, o gesto nasce do corpo, as ideias da mente, tudo nasce… E imitamos isso. Imitamos o movimento criador. Imitamos para aprender criar. Imitamos para aprender qualquer coisa; imitamos, na verdade, ao expressar, ao se comunicar, o nosso nascimento.

Criar, no entanto, não é só pôr no mundo, não é mesmo? Toda mãe sabe disso. Mas é acompanhar as transformações, orientar e instruir cada ação para uma finalidade. E é por isso que existe o teatro. Para gente poder ver e perceber as ações da vida acontecendo, se transformando e sendo imitadas. Para tentar saber no que vão dar essas ações, esses gestos, essas vidas. Como disse Jean-Paul Sartre, só com a morte podemos concluir um sentido ou não para as nossas vidas. No teatro é usual, portanto, cada ação ter um propósito, ter um fim, um objetivo, uma orientação, uma instrução, um sentido (mesmo que aberto ou em suspensão), porque queremos saber no que vai dar. É usual, no teatro, nascermos e morrermos a cada dia. Para afirmar o sentido que a vida tem e há de ter, quer queiramos, quer os outros queiram.

Teatro: “lugar da onde se vê”. A partir dessa definição habitual, Eleonora Fabião afirmou que o ator ao mesmo tempo: vê, se vê, se vê vendo e se vê sendo visto. O que reitera que o teatro é uma forma de se ver por inteiro e de se estar por completo. Eis aí o paradoxo, porque para isso precisaríamos estar morto. Toda ação, no palco, carrega em si esse conflito, o paradoxo essencial que atrai inevitavelmente a nossa atenção. Tendemos a buscar finalidades para as coisas (sabemos que tudo que nasce tem um fim, e queremos um sentido para isso). Na verdade, o que queremos ver são esses conflitos sendo resolvidos e quanto mais resoluções, mais sentidos, menos fins e mais eternidades. Somos capazes de criar sentidos para nós mesmos durante toda a vida, quando simplesmente queremos ser vistos, ouvidos e sentidos.