Lu Campos – a arte que transborda pra vida

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A gente já contou por aqui um pouco da experiência da Cia Gargarejo com o teatro, as formas de expressão da identidade étnico-racial no musical “Bertoleza” e a pandemia. Acontece que a conversa rendeu mais do que esperávamos e de uma forma especial, através da Lu Campos, a atriz que interpreta a personagem principal – com sua história de descobrimento de identidade e interpretação de uma personagem negra, mulher e com uma lição a ensinar. 

A história da Lu com os palcos não é a tradicional jornada de alguém que estudou teatro por anos para seguir um sonho. A artista é formada em comunicação e, em 2014, após o adoecimento da mãe, Lu passou por um processo de reestruturação da vida profissional, deixando empregos fixos para se dedicar melhor ao cuidado da mulher que Lu define como a “viga mestra” da casa, até que uma condição semelhante ao Alzheimer mudasse suas vidas. Nesse período, a convite de um amigo, Lu decidiu fazer um Workshop de teatro musical, em Campinas, onde morava, uma atividade que lhe deu a chance de entender melhor sua forma de expressão com a arte e usá-la como um processo terapêutico em um momento delicado da vida.

Peça: Deu a louca no convento – Teatro Castro Mendes em Campinas, 2017.

E como acontece na cadência de acontecimentos da vida, esse trabalho a levou a conhecer a preparadora vocal da Cia Gargarejo, Ju Manczyk, e enfim, fazer parte do grupo.

A história da Cia Gargarejo com Bertoleza começou em 2015, quando o diretor Anderson Claudir decidiu trazer a personagem de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e convidou a artista a interpretar a personagem que dá nome ao espetáculo. Desde 2015, a peça foi trabalhada pelo grupo e os levou a várias apresentações importantes como Festival Satyrianas e o Festival de Cenas Curtas de Sumaré  – esse último em que Lu Campos ganhou como artista revelação. 

Com as experiências nas apresentações, Lu revela que ainda não tinha total consciência do que a peça significava: “eu ainda não tinha introjetado o protagonismo da personagem, eu já entendia que dizia respeito a uma parte de mim, mas não estava tão envolvida com as questões raciais e de negritude”, explica.

Em 2019, com a retomada da peça pela companhia – agora baseada em São Paulo – e seu processo pessoal de descoberta e identificação como uma mulher negra, Lu começou a perceber a relação da personagem com uma questão que ia além de sua experiência como artista, mas dizia respeito à ancestralidade, história e negritude. Foi durante esse ano que o diretor da peça, Anderson Claudir, fez a opção de remodular o espetáculo para falar de mulheres negras com um elenco majoritariamente formado por atores negros. 

Cena de musical “Bertoleza” realizado pela Cia Gargarejo em 2020

Nesse processo, Lu passou a se apropriar mais e mais do assunto. Ela entrou para a cia TEN (Teatro Experimental do Negro), começou uma pós-graduação em Matrizes Africanas, na Casa de Cultura Fazenda Roseira – uma antiga fazenda escravocrata da região – e também fez um curso de psicologia voltado ao assunto. Tudo isso resultou em uma personagem que passou de uma mulher ancorada no sofrimento, para uma personagem ancorada na força da mulher negra – diferente das primeiras apresentações de anos atrás: “O amadurecimento e crescer da Bertoleza [com os anos] teve muito a ver com a minha pessoa e por isso acabou nascendo um apego com a personagem… aliás, se algum dia eu tiver que passar ela pra frente, vai ser de uma forma muito carinhosa porque eu considero ela uma das minhas vidas”, completa Lu. 

Essa virada trouxe uma nova identidade para o espetáculo, tratando sobre o feminismo e protagonismo da mulher negra, em meio a situações difíceis como preconceito e racismo. E nesse uso do teatro para falar sobre temas tão espinhosos, Lu acredita que a arte tenha o papel de tocar em questões que as palavras não alcançam: “a mãe de uma das integrantes do elenco nunca tinha visto uma peça de teatro, e quando ela assistiu, ela se emocionou muito… e eu gosto de dar esse exemplo porque ela não é uma pessoa do meio artístico, acadêmico, mas ela conseguiu se conectar com aquela mulher… e é isso que a arte faz”, pontua. 

Em momentos de pandemia, e com a evidência do racismo na sociedade e do crescente movimento Black Lives Metter, Lu analisa a relevância de trazer a pauta à tona: “olha a importância dessa reverberação toda, em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. A partir disso, praticamente uma revolução se instituiu”.

Bertoleza foi apresentada no SESC Belenzinho até duas semanas antes do isolamento social e rendeu uma boa surpresa à artista: Lu foi eleita novamente atriz revelação, dessa vez pelo, site É Sobre Musicais. E não é pra menos. Além de toda a preparação e envolvimento com a história que misturou Bertoleza e Luana, a jovem atuou e cantou na peça, e, faz questão de comentar, a próxima aventura no campo da música será aprender um instrumento: “eu quero aprender a tocar berimbau”.

Nesse momento, as apresentações de Bertoleza estão canceladas, mas o trabalho não para. Lu continua com seus projetos e a Cia Gargarejo se prepara para o retorno das atividades no futuro e, com sorte, com muitas apresentações de Bertoleza.

 

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Parte da construção e situações que acontecem com a protagonista é relacionada à figura de João Romão, o personagem que, através da sua posição de opressor, traz um lado importante de ser mostrado na história do musical. Por esse motivo, conversamos também com o Bruno Silvério, ator e interprete do personagem. E você pode conferir abaixo: