Entrevista

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Pedaço da Vila: Como tratar o preconceito da vizinhança com as pessoas que moram na comunidade Mário Cardim?
Fabiana Cristina Lopes: Uma das reuniões do Conselho de Saúde foi sobre a questão do Posto da Rua Santa Cruz, onde não temos médicos obstetras nem pediatras. Isso faz com que toda a população da Vila Mariana tenha que se deslocar ao Posto de Saúde da Av. Ceci – onde é possível encontrar médicos com essas especialidades. Tentamos trazer essas espcialidades para o Posto da Santa Cruz e escutamos um dos conselheiros dizer: ‘a Vila Mariana é bairro nobre, ninguém usa SUS.’  E eu falei: convido você a entrar na minha comunidade para mostrar quantas famílias estão desassistidas. Não só na Mário Cardim, mas em todas as comunidades da Vila Mariana – são várias! E, voltando à pergunta sobre o que eu acho que deveria ser feito para acabar com esse preconceito, vou explicar com uma analogia: é muito difícil uma pessoa falar que não come chuchu sem antes experimentá-lo! Para falarmos sobre algo que não gostamos, que acreditamos não estar certo ou legal, temos primeiro que presenciá-lo e vivenciá-lo, senão você não tem propriedade para falar algo. Costumo dizer a qualquer um que queira conhecer a minha comunidade ou qualquer outra – como a Mauro 1, a Mauro 2, a Hellen Kelly – que a recepção será totalmente diferente do que as pessoas imaginam. Por isso convidei os conselheiros a visitarem essas comunidades e descobrimos que mais de 3 mil pessoas estavam desassistidas de saúde. Acredito que hoje as ruas de lazer, programa da prefeitura chamado Rua da Gente, serve para isso: para que os vizinhos dos condomínios fechados e das vilinhas do bairro quebrem esse preconceito. Essas pessoas só têm contato com a doméstica, com o porteiro do prédio, com o entregador do mercado que moram aqui.  Se participarem do Rua da Gente, trazendo seu filho para andar de bicicleta com a criança que é da comunidade, ele vai ter contato com a mãe ou o pai dela e, até mesmo, terá a oportunidade de conhecê-la. Antigamente não havia todo esse preconceito entre o favelado e o morador do condomínio fechado… Por que ter hoje? É preciso parar de viver fechado atrás de grades para se proteger do vizinho favelado – um dia ele pode te socorrer ou você pode acabar socorrendo ele! Sobre a questão dos traficantes e ladrões que as pessoas acreditam que só moram na favela, na verdade eles estão em qualquer lugar de São Paulo. Eu já presenciei em pleno meio-dia, na frente das faculdades renomadas que temos no bairro, alunos fumando maconha. Aí você vai dizer: quem passa as drogas é o favelado! E as crianças da comunidade que precisam ir para a escola e têm de passar pelo meio da rua, pois os alunos estão ocupando as calçadas com o seu narguilé, seu cigarro de maconha e sua garrafa de cachaça, inutilizando a calçada não só para elas, mas, para outros moradores do bairro? Eu já tive que passar no meio da rua, empurrando uma cadeira de rodas, pois não havia acesso à calçada. Se você for à Praça da Sé, vai ver pelo caminho fóruns e mais fóruns e um monte de gente fumando maconha. Nessa semana mesmo, passei pelo Terminal Bandeira e vi dois policiais à paisana ao lado de dois engravatados, com pastas na mão, fumando maconha livremente. Não é só o favelado… Temos que parar com essa hipocrisia de dizer que maconheiro é gente que mora na favela. Essa visão da sociedade compromete o futuro das crianças que moram na comunidade, pois elas são tachadas desde pequenas.

Fonte: Pedaço da Vila

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